TRANSGÊNICA III


Projetos beneficiários de verba pública
não deveriam levar tão a sério
a acepção podre de cultura.

 

Outra evocação impertinente, em Traições literárias, de Hélio Schwartzman (Ver Transgênica e Transgênica II), reside na mistura de referências heterogêneas quanto ao espaço e quanto ao tempo, quando confronta Beowulf e Rabelais com Machado de Assis: geleia geral, em que o excesso de ingredientes inconciliáveis inaugura o insípido.

Sem títuloQuanto ao espaço ? o linguístico, é claro ? o primeiro é originalmente inglês medieval; o segundo, francês renascentista; o último, português moderno. Haja disparidade.

Quanto ao tempo: aquele é do séc. VIII, embora o manuscrito tenha data ulterior; este, do séc. XVI, classicismo francês. E Machado morreu há pouco mais de um século ? em 1908! Depois de confrontar autores tão díspares, o articulista doutoralmente conclui que entre eles “a diferença é muito mais de grau do que de natureza”.

Empedernido estudante de literatura há décadas, nunca aprendi a comparar autores por grau nem por natureza. Imagino que o articulista tenha régua própria, mas não a empresta ao leitor. De algo, porém, estou certo: a atribuição do adjetivo arcaico a Machado é por má fé ou por ignorância; sem coluna do meio!

Na evolução histórica da língua portuguesa, o século XVI é o divisor de águas entre o arcaico e a modernidade. Quando editados, os textos do primeiro foram, com frequência, transpostos para a forma moderna; em outros, receberam glosas e notas explicativas. Com otimismo, imagino que entre os alfarrábios de meus ex-alunos de literatura portuguesa, ainda existam páginas mimeografadas com poemas das Cantigas de trovadores medievais em português moderno, da excelente lavra da professora Cleonice Berardinelli. Mas, quanto a Machado, falar em arcaico ou em tradução é pura impertinência.

Tem razão o articulista da Folha ao destacar que as palavras envelhecem. Mas essa é ocorrência que afeta a todos os componentes da cultura, como comportamentos, hábitos, roupas e tudo mais, porque não há cultura sem dimensão histórica. E aqueles que aprovaram o projeto Secco talvez precisem ler um pouco mais de antropologia.

Mas a leitura de textos antigos não é, como simplifica o texto da Folha, privilégio dos puristas; ademais, a leitura nem sempre constitui processo prazeroso, embora textos dotados de excelência em geral provoquem também prazer, inclusive intelectual, seja por sua graça construtiva, seja por sua sutileza.

Antes de concluir, vai um exemplo disso, que me caiu sob os olhos ao reler o início da narrativa de Bento Santiago. Relata ele que, adulto, reconstituiu no Engenho Novo a casa em que crescera, em Mata-cavalos. Com isso, pretendeu concentrar na idade madura dois espaços e dois tempos de sua vida.

Recorde, então, o leitor que as paredes da sala estampavam quatro bustos: César, Augusto, Nero e Massinissa. E que, ante a monotonia de seus dias, após concluir que as quatro personagens pouco o ajudavam, Bento decide escrever o livro, para reconstituir o próprio passado. Assim relata sua emoção: Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. E, entrando a interpelar as imagens, exclama: Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo (destaque meu).

Que importância teria, na interpelação a César, se mudássemos comentários por ideias, lembranças, recordações ou outra palavra? A alteração seria provavelmente aprovada pelo alvitre da sra. Secco ou de seus asseclas.

Sucede que Bento Santiago não só estudara latim no seminário, como era bacharel em direito. Constava, então em seu cabedal que uma das mais importantes obras de César intitulava-se Comentarii de bello gallico ou, Comentários sobre a guerra gaulesa. Sob o ponto de vista de Bento, é a forma que escolhe para se identificar com seu interlocutor: César. Até publicitários atuais dominam essa retórica mínima…

Mas sob a óptica dos estudos literários e da intertextualidade, o mero uso da palavra comentários funda a âncora ?ou o link, no angloguês frequente entre nós ? que amarra o discurso machadiano na sutil urdidura verbal que, instilada no tempo, constitui a cultura em sua historicidade. Tire-se a palavra, sra. Secco, e se rompe o vínculo. Excelência também se faz com sutileza.

E não me venham dizer, como perpetrou alguém no curso da polêmica, que respeito ao texto autoral resulta de uma hipotética ou suposta excelência, juízo que, por infeliz, é filho de populismo vulgar, que tudo nivela por baixo.

Todos sabemos que a cultura se faz de estratos e níveis, e que a ignorância, a desinformação, o diletantismo, o oportunismo e inúmeros outros ismos fazem parte dela, sim.

Mas os responsáveis pela aprovação dos projetos ministeriais talvez não devessem levar tão a sério a extensão e o lado podre da noção de cultura, a fim de que realmente se respeitem a qualidade e a excelência dos autores que a história instalou no pódio.

Novidades:

1) Transferidas para agosto, por razões técnicas,  as novas funcionalidades no saite, como feed e área para comentários dos leitores.

2) Mas, antes disso, aparecerá o texto Desmascarada, sobre a moda black-bloc.


2 comentários para "TRANSGÊNICA III"

  • A questão não é popularizar os clássicos, mas sim nivelar a cultura no subsolo da mediocridade. Parabéns pelo texto.

    Evandro Reis

    em 7 de agosto de 2014

    • Obrigado, Evandro, pelo comentário. Mas, sobretudo, pelo teu desinteressado apoio desde o início deste saite.

      ddpino

      em 7 de agosto de 2014

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